Os caçadores de buracos

07 Novembro/2012

 

Os vazamentos em tubulações de água ainda fazem com que as concessionárias no Brasil tenham altos indices de desperdício — mas isso começa a mudar
 
 
Os funcionários da Sabesp, companhia de água e saneamento controlada pelo governo de São Paulo, estão munidos de geofones, espécie de estetoscópio capaz de identificar ruídos fora do padrão no subterrâneo. Até 2020, com a ajuda desses equipamentos, os 60 000 quilômetros de tubulações da empresa espalhados pelo estado serão meticulosamente inspecionados. O objetivo é detectar vazamentos de água. Por trás dessa e de outras ações, a Sabesp tem uma meta: chegar ao final desta década com um índice de perdas de 15%. Atualmente, ele é de 26%. Se bem-sucedida, a empresa, que controla a distribuição de água na capital paulista e em mais 362 municípios, atingirá um patamar considerado pelos especialistas apenas como "aceitável". Em países como o Japão e a Alemanha, o índice de perdas das concessionárias, que grosso modo pode ser traduzido como água desperdiçada, está na faixa dos 5%. 
 
Se sob a ótica dos países ricos o desempenho da Sabesp é sofrível, na comparação interna a empresa vai muito bem. A média brasileira de perdas é de 37%. De acordo com a mais recente edição do ranking do Instituto Trata Brasil, entidade que promove a causa da universalização dos serviços de água tratada e rede de esgotos, apenas seis das 100 maiores cidades brasileiras registram menos de 15% de perdas. Na ponta oposta, 17 cidades apresentaram índices superiores a 60%. "De cada 10 litros de água captados, tratados e transportados pelas companhias brasileiras de saneamento, quase 3 se perdem por causa de vazamentos e 1 é desviado por fraudes", afirma Edison Carlos, presidente do Trata Brasil. Por várias décadas, o combate ao desperdício de água não esteve entre os principais objetivos das concessionárias de saneamento. Recentemente, o quadro começou a mudar, com a profissionalização da gestão das companhias estatais e também com a entrada da iniciativa privada nesse segmento. A motivação é, acima de tudo, financeira. Uma perda de 20% significa jogar no lixo 20% do capital que foi investido em dois processos que estão se tornando cada vez mais onerosos: a captação e o tratamento da água.
 
As ligações clandestinas e as fraudes dos mais diversos tipos em favelas e bairros luxuosos — há um aparelho chamado "morsa", que retarda o funcionamento dos hidrômetros — são preocupantes, mas a maior mobilização das concessionárias está mesmo no combate aos vazamentos, o que mais afeta seus resultados. Em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, a empresa privada Águas Guariroba conseguiu reduzir o índice de perdas de 56% para 22% desde que assumiu a concessão, em 2006. Os investimentos específicos para esse objetivo têm sido de cerca de 12 milhões de reais por ano. Em seis anos, a Águas Guariroba conquistou 66 000 novos clientes e acrescentou quase 40 milhões de reais à sua receita anual. Dois dos pilares da estratégia da Águas Guariroba são o planejamento e a gestão. A cidade foi dividida em áreas nas quais o abastecimento é avaliado de forma independente. Para isso, foram necessárias uma série de ajustes na rede e obras, como a instalação de válvulas em pontos estratégicos. "Passamos a ter um controle detalhado do volume de água que disponibilizamos para cada área e o que foi efetivamente faturado ali. A análise ficou bem mais fácil dessa forma", diz João Fonseca, presidente da concessionária. 
 
Nos últimos três anos, a Sabesp realizou investimentos pontuais num programa de combate às perdas que fez o índice cair de 30% para 26%. Com a obtenção recente de um financiamento de 1,5 bilhão de reais da Japan International Cooperation Agency, maior agência de fomento do Japão, o programa passou a ter outra envergadura, e a meta de conquistar um índice inferior a 20% até 2020 se tornou mais factível. "Concluímos que os investimentos se pagarão e darão um retorno adicional de 20% ao longo do período de execução do projeto, além de gerar benefícios que durarão por décadas", afirma Eric Carozzi, superintendente de desenvolvimento operacional da Sabesp. O projeto inclui a transferência de tecnologia japonesa, com o intercâmbio de profissionais entre os dois países, e uma série de obras de infraestrutura, especialmente a substituição de redes antigas e deterioradas, feitas de ferro ou fibrocimento, por materiais mais modernos. Um dos mais usados hoje é o polietileno, que tem a propriedade de cobrir longas extensões — de até 100 metros — sem a necessidade de juntas, os pontos mais vulneráveis. A previsão da Sabesp é substituir 674 quilômetros de redes de água até 2016, além de 875 000 ramais prediais e 1,6 milhão de hidrômetros. A despeito da ajuda dada pelo Japão, o desafio da Sabesp não deve ser subestimado. Nos últimos três anos, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) também investiu em tecnologia e equipamentos, como os geofones. Assim, seu índice de perdas caiu de 38% para 27%. "Essa primeira camada de gordura é fácil de tirar quando se começa a fazer um trabalho sério e planejado", diz o gerente de controle de perdas, Celso Braga Pinto. "Depois disso, porém, cada ponto percentual se transforma em uma grande vitória." Ainda que demore a tapar todos os buracos, o setor, finalmente, dá sinais de que está começando a virar a página do desperdício.
 
 
Maurício Oliveira
 
 
Guia Exame de Sustentabilidade 2012
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